segunda-feira, 12 de julho de 2010

DUAS EXPERIÊNCIAS

Uma alegria! Sempre ela a me dar a mão. Clarice tem o poder de nos fazer sentir menos extraviados da espécie humana. Não é mesmo? Alguém? Alguém? Hoje uma esperança se cumpriu e eu nem sabia que esperava, só descobri essa minha expectativa de conhecer alguém que entendesse que em certas circunstâncias agradecimento é desnecessário, às vezes até uma ofensa, quando me vi alegre de alívio ao ler "Uma experiência" dela. Um dia também cheguei num nível primitivo dos sentimentos. Fiquei uns trinta minutos em silêncio e depois mais uns vinte se passaram em que eu somente chorava. Bingo! Eu estava naquela hora de cinquenta minutos... e foi assim que eu a ocupei. Eu nem era mais gente, as palavras me ofendiam de tão incapazes. Era como fazer as necessidades na frente de um estranho, não, era pior, era como chorar na frente de um estranho. Só houve uma palavra naquele dia: obrigado. Obrigado? Ah, ele não havia entendido que era preciso ele também descer às cavernas primitivas comigo, vestir seu pêlo mais macio e se mostrar ele também animal incapaz. Não, ele continuou homem e estava feliz que eu havia confiado nele. Confiei? Provavelmente. Mas era desespero de um animal ferido. Não há regozijo possível nisso. No outro dia em que me pus humana novamente tentei explicar a ele que gratidão não virava brinquedo, virava ameaça, não entendia como nem por que, mas aquela palavra havia me ameaçado. Talvez qualquer palavra tivesse tido o mesmo efeito desta terrível condenação: levanta-te e anda! Isso é para os homens. Naquele dia, eu urrava.

UMA EXPERIÊNCIA - CLARICE LISPECTOR

"Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.
Senti-me então como se eu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.
E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podem agradecer, então eu, o tigre, dei umas voltas vagarosas em frente à pessoa, hesitei, lambi uma das patas e depois, como não é a palavra o que tem importância, afastei-me silenciosamente".

(Em Crônicas para Jovens: de amor e amizade/ Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010)

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