segunda-feira, 18 de julho de 2011

BURACO DA FECHADURA E O JARDINEIRO JAPONÊS

"As coisas sem importâncias são bens da poesia"
Manoel de Barros


Buraco da fechadura

Assim a vida cotidiana, sem mágoas, sem dramas, sem revelações epifânicas, a vida de todo o dia, do passeio com cachorro, do escovar os dentes, da preguiça de lavar a louça, do capô desbotado do meu carro pelo sol do cerrado, do trabalho, do mercado, tudo, são os bens da vida. Descobri que essas coisas sem importância são a substância de quem sou e me ligam, às vezes, pela distração, às coisas dos altos mistérios, que sempre quis olhar pelo buraco do proibido. Essa foi minha descoberta em 2009. Descobri que meu problema era achar que eu tinha um, quando na verdade o que eu tinha era a vida, mas eu não sabia como ela funcionava e queria saber obsessivamente para não pisar na margem errada e desaparecer. Sempre achei que fazia errado a vida, que me atabalhoava com as emoções e pensamentos e encaixava tudo fora de ordem e tinha receio de que vissem meu mosaico atrapalhado. Achei que viver era escapar para os mistérios e eu não conseguia, porque a vida aqui me queria também. Hoje não sei a vida, senão essa de todos os dias, e não páro mais de caminhar, e de repente, quem sabe, esbarro com alguma insignificância e a olho pelo buraco do mistério, e a transformo em epifania.


O jardineiro japonês

Foi-se o tempo em que viagens à Índia, incensos e mantras me enchiam os sentidos de desejos pelo flutuar, pelo transcender. É verdade que entre meu quarto-templo de adolescente mística e meus anos de vida adulta houve guerra, muita guerra entre meu céu e minha terra, que tentei preservar da vida real e da vida real tentei esconder esta batalha. Procurei ser um muro forte, para que nada sofresse danos irreversíveis, nem a guerra interna contra os deuses, nem a vida humana e suas contas-correntes. Minha pele nesses anos sofreu rachaduras. Para a vida real, digo que é a secura de Brasília, terrível admoestação dermatológica. Mas foi também pela muralha que me tornei, eu sei. E tudo tem seu tempo de erosão, então melhor ceder logo enquanto há tempo para refazimentos. Refizemos a relação, o divino e eu: não sento mais em lótus, não entro mais em templos, mas posso até fazê-los se quiser. É que quanto mais queria o alto, mais quebrava o salto. Eu agarrava a perna de Deus, e ele a sacudia, larga menina! Custou, mas entendi: nascer na terra, não era essa a idéia? Grande admiração tive outro dia pelo japonês morador da minha quadra que cuida do jardim público, ele apara a grama, tira o lixo e limpa a sujeira dos outros. A sujeira dos outros no jardim que é de todos, mas é mais dele, pois ele sabe que é dele. Passos lentos, gestos sob medida, ele vive como quem pratica tai-chi, me fez lembrar de respirar. Que grande insight, ao mesmo tempo viver e respirar. Amei a vida em seu lugar. Grande templo é o mundo, e o cuidado melhor forma de meditar. Óh disciplina oriental, rogai por mim!

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